Ao pé do ouvido
Gente carregada da própria sina de viver as coisas. A gente que não consegue dormir porque perderíamos o tempo dos olhos abertos. Teus olhos velando os meus. Flecha de cupido sem dó em corações poéticos. Almas livres desconhecem gaiolas. Doce cavalo selvagem montado a pêlo. Goles e mais goles de Catuaba quente. Cachoeira vermelha na tua boca. Beberia o teu rio de canudinho até tocar o olho d‘aguá. Teu suor. Meu drink predileto sem pedras nem gelo. E as flores que soltam purpurina na pele e desenham máscaras para o nosso baile. E o disco do Arnaldo que explodiu de tanto te pedir. Tudo pode acontecer. Que venha a benção do mundo dançar nas nossas glórias. Pode acontecer qualquer coisa. E eu que só queria ficar quietinha e rezar baixinho no pé do ouvido do senhor para não confundir os pedidos. Para não esquecer os obrigadas que tenho a dar. Para te botar com pressa em minhas preces de desejo. E você, que é a palavra mais linda do português. E o sol do frio de São Paulo. E as pequenas distâncias entre as portas. E a luz que agente verte para o universo. E o infinito que é um oito deitado. E este instante que é a única coisa que de verdade existe. Vida é uma gota de suor que brota na testa e desce ao ventre molhando a pele- estampa do caminho que fez. Tudo isso que se revela aos olhos. Entro no teatro no escuro para não acordar nossos fantasmas. Silencio o coração e choro um pouquinho para transbordar a alegria e o privilégio de estar aqui.
Escrito por Paula Cohen às 23h22
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